MDV
Histórias

A História de Fernanda...

A família foi-nos sinalizada por causa da Fernanda. Esta menina de 4 anos é muito agressiva nas brincadeiras com as crianças do infantário que frequenta, tem comportamentos bastante explícitos a nível sexual e uma linguagem inadequada para a sua idade.

O “processo” desta criança foi aberto em 2006 porque o pai apresentou queixa na polícia contra o marido da ama como por ter abusado sexualmente da sua filha. Por ausência de provas, o caso foi encerrado.
Porém, em 2007 foi reaberto. Desta vez era a mãe da Fernanda a queixar-se do pai da menor por abuso sexual. Está a aguardar a resposta do tribunal, bem como a consulta de Medicina Legal da menina.

A Emília, é uma mulher com 26 anos. Além desta filha, tem um rapaz de 7 anos, fruto de uma relação anterior. Tal como a irmã, este menino tem acompanhamento psicológico por ter comportamentos pouco adequados na escola, o que fazia com que levasse algumas tareias da mãe com um cinto.
A Emília saiu da casa onde residia com o “suposto” abusador da filha e foi viver com os pais onde, por falta de espaço, partilha o quarto com os filhos. Todos os seus pertences ficaram em casa do ex-companheiro uma vez que ali não há espaço para mais.

Assim, um dos seus objectivos é ter o seu próprio espaço e recuperar os seus bens.
O seu ex-companheiro persegue-a na rua, no trabalho e nos locais que frequenta. Manda-lhe mensagens constantes e utiliza os menores para se aproximar dela.
A Emília quer viver em paz e ter força suficiente para se libertar desta pressão que o ex-companheiro exerce sobre ela.
Quer resolver a questão da regulação do poder paternal e conseguir do tribunal uma medida de afastamento deste pai relativamente a Fernanda.

Desta forma, chegou-se ao segundo objectivo da Emília: trabalhar a sua auto-estima no sentido de conseguir total autonomia, tanto material como psicológica, relativamente a este ex-companheiro abusivo.
Alem dos problemas decorrentes da situação já exposta, a Emília gostaria de “ter mais mão” nos filhos, de saber como lidar com as birras de Fernanda e os comportamentos de Pedro na escola, sem perder a cabeça e ter de fazer recurso aos gritos, às ameaças e às tareias. E assim se chegou ao terceiro objectivo da Emília: dar regras e impor limites às crianças e saber castigar com justiça.

Partindo das necessidades verbalizadas pela Emília, a assistente familiar delineou com ela um plano de trabalho a realizar durante o período de acompanhamento. Não se pretendia uma mudança radical nesta família (as mudanças radicais levam, por vezes, toda uma vida…). Pretendia-se remover os factores que punham em risco estes menores e fortalecer os pontos fortes desta mãe, ajudando-a a criar as condições básicas para o efeito.

O que se fez então?

  • procura activa de casa;
  • regulação das visitas do ex-companheiro aos menores;
  • treino de competências parentais: definição das regras familiares, divisão das tarefas domésticas adequadas ao nível etário dos menores, gestão do sress e da raiva;
  • treino de competências pessoais: assertividade, capacidade de escuta e expressão de sentimentos.

Na ficha de avaliação que a Emília preencheu, pudemos ler, entre outras afirmações:

Tive uma pessoa em quem pude confiar e aliviar o meu stress.
Consegui impor algumas regras nos meus filhos.
Senti-me com a família ao meu lado, alegre e com vontade de mudar.
Gostaria de manter um contacto regular com a minha assistente familiar
”.

Neste momento a família de Emília continua a ser acompanhada pelo MDV fazendo-se follow-ups periódicos.

A História de Joana...

A família foi-nos sinalizada por causa da Joana. Com 6 anos de idade, está institucionalizada desde que nasceu mas pretende-se que regresse à família, com quem passa agora apenas os fins-de-semana. No entanto, é condição de regresso o trabalho com a mãe, a quem não se reconhecem competências parentais.
Quando a Joana nasceu, sua mãe tinha apenas 15 anos e vivia em casa da mãe e respectivo companheiro, com mais dois irmãos. As dificuldades económicas eram imensas e as condições habitacionais nulas.

Fomos encontrar Dora, mãe da Joana, numa casa abarracada, num bairro problemático na periferia de Lisboa. A “casa” tem uma divisão no piso inferior, com uma casa-de-banho e uma cozinha que funciona também como sala. No piso superior há uma divisão onde dorme a Dora, o actual companheiro e a Joana, quando vem a casa.
A Dora teve empregos pontuais, estando actualmente desempregada, e a estudar para tirar o 12º ano. Recebe o RSI no valor de 280 euros. O companheiro tem uma doença crónica renal grave e recebe uma pensão no valor de 181 euros.

Com uma paisagem de fundo tão negativa, que potencialidades encontrou a assistente familiar nesta família?

  • grande união familiar e óptimas relações de vizinhança;
  • actividades lúdicas frequentes na família;
  • boa gestão dos fracos recursos financeiros e distribuição das tarefas domésticas;
  • forte auto-estima da Dora e competências parentais;
  • grande motivação para alterar o que fosse necessário ao regresso da filha.

O “retrato” deste agregado familiar era bem diverso daquele que a assistente familiar estava à espera…
Quais eram então as necessidades da Dora?

Verbalizou-as de imediato:
  • procurar activamente um emprego;
  • encontrar uma casa com um mínimo de condições;
  • ter acesso a algum mobiliário e electrodomésticos essenciais;
  • conseguir apoio alimentar.

Relativamente à perspectiva de regresso da filha, a Dora pensou pedir ajuda nos seguintes aspectos:
  • organizar a casa para a integração em pleno da filha;
  • tratar da documentação necessária para a sua transferência de escola e inscrição no ATL;
  • adquirir o material escolar solicitado;
  • conseguir apoio psicológico para a menor no sentido de uma melhor adaptação à sua nova situação de vida.

A assistente familiar teve, pois, todo o material necessário para traçar com a família os seus próprios objectivos e estabelecer as etapas de trabalho a realizar.

Relativamente ao bem-estar da Joana fez-se o seguinte:
  • organização da vida doméstica em função do bem-estar da menor: regras e horários familiares, gestão do espaço disponível, etc;
  • transferência de escola e inscrição no ATL. Aquisição do material escolar necessário, através do MDV;
  • apoio psicológico gratuito na Junta de Freguesia.

Relativamente à Dora:
  • elaboração do curriculum vitae;
  • envio de candidaturas a várias propostas de trabalho;
  • inscrição em empresas de trabalho temporário;
  • acesso ao RSI.


No que respeita à casa deste agregado familiar, não é possível, com o que auferem, conseguir mudar. Pudemos, sim, fornecer o mobiliário necessário e alguns electrodomésticos articulando com a BUS (Bens de Utilidade Social) e conseguimos o apoio alimentar através do Banco Alimentar.

A assistente familiar constatou, ao longo do tempo que durou a intervenção, que a Joana é uma criança sociável e afectuosa. A troca de carinhos com a mãe é frequente e a cumplicidade entre mãe e filha é total.
Não há qualquer motivo para a Joana continuar fora da sua família. Todos temos direito a viver com os nossos, desde que não se corram riscos.
É o caso de Joana, que viveu num lar desde que nasceu e não sabe o que é viver numa família.

A História de Elsa...

Esta família foi sinalizada em Janeiro de 2008. A ficha de sinalização referia uma mãe agressiva e deprimida com uma bebé de 9 meses. Como a mãe da menor, a Elsa, estava em internamento psiquiátrico, o pai ficou com a guarda da menina e a intervenção não se fez.
Curiosamente, um ano depois, a assistente familiar que tinha ficado de acompanhar esta família recebeu uma chamada telefónica da Elsa, estava em pânico, porque queriam retirar-lhe definitivamente a menina colocá-la num Lar de Acolhimento.
A intervenção começou de imediato.

Quem é a Elsa, o que faz, com quem vive?
Teve um passado complicado pelo que idealizou constituir uma família feliz. Arranjou um companheiro de quem teve esta menina mas as coisas não correram conforme o sonho da Elsa. A depressão pós parto que sofreu foi tão grave que teve de ser internada numa unidade psiquiátrica. O pai assumiu o compromisso de zelar pela filha enquanto a mãe o não pudesse fazer. Mas a vida dá muitas voltas… veio uma oferta de emprego bastante convitativa na Holanda pelo que o Emanuel decidiu partir e tentar a sua sorte com a especialidade que tinha aprendido a dominar: a cozinha. Entregou a Mariana a uma ama e partiu…

Refeita da sua depressão, a Elsa era agora confrontada com uma realidade muito dura: um companheiro ausente e com pouca motivação para regressar e uma menina com a qual lhe era permitido estar apenas nos fins-de-semana e nas férias. Como a ama não oferecia garantias suficientes das suas competências, a entidade sinalizadora achava por bem retirar a menor à ama e impedir esta mãe incompetente de recuperar a filha.

Começou a intervenção do Projecto Família.
A assistente familiar deparou-se com uma casa que é um verdadeiro cubículo: há um quarto que funciona também como sala, uma cozinha e uma casa de banho. Não tem espaço para arrumação pelo que os parcos haveres da Elsa estão dentro de sacos de plástico. Também não existe esquentador. A Elsa sobreviveu durante o ano transacto com um subsídio da Santa Casa do qual ia ser privada uma vez decidida a institucionalização da Mariana, sendo que conseguiu o RSI, no valor de 180 euros.

Como é a Elsa? Como está ela neste momento? O que faz? O que quer fazer da sua vida?
Nas duas primeiras semanas de intervenção, a assistente familiar constatou o seguinte:
  • a Elsa vive na esperança de que o marido regresse e o pesadelo da família desfeita acabe;
  • gostava de ter uma casa em condições onde possam viver dignamente os três;
  • mãe e filha têm um óptimo relacionamento.

Objectivamente, por que motivo é que a Mariana não pode voltar para casa da mãe?
As pessoas têm de ser castigadas quando têm depressões e se mostram incapazes de, no momento, cumprirem todas as suas funções?

A esperança de reaver a filha levou a Elsa a verbalizar as suas necessidades imediatas:
  • informar de imediato a Equipa de apoio ao Tribunal de Família e Menores que vai aceitar a intervenção do Projecto Família havendo assim a hipótese do Tribunal não procede à retirada imediata da Mariana;
  • trabalhar e ganhar o suficiente para si e para a sua filha;
  • provar que é uma mãe capaz e que a filha se sente bem com ela.

O trabalho com a assistente familiar foi realizado no sentido de se atingirem estes objectivos enunciados pela Elsa. Assim:
  • Informou-se a Equipa de Apoio ao Tribunal de Família e Menores sobre esta intervenção e respectivos objectivos;
  • marcou-se uma reunião com os técnicos envolvidos neste processo;
  • agendou-se a avaliação psicológica da Mariana no departamento de Psicologia do MDV no sentido de provar que é uma criança física e psicologicamente saudável que tem toda a vantagem em regressar à sua família;
  • contactou-se o Banco de Bens Doados para providenciar um esquentador e outros bens essenciais necessários a uma casa com uma criança;
  • fez-se uma procura activa de emprego e conseguiu-se. A Elsa tratou sozinha da documentação necessária para o ingresso no seu posto de trabalho;
  • falou-se com a educadora da Mariana e o feedback foi muito bom;
  • trabalhou-se a auto-estima da Elsa, valorizando as suas capacidades e ajudando-a tomar consciência das fragilidades que poderiam por em risco a sua autonomia e capacidade de decisão enquanto mãe.


A assistente familiar afirmou, no final da intervenção junto da Elsa, que foi esta a mãe mais competente com quem trabalhou a nível da relação com a filha.

A História de Helena e Rosa...

Esta família foi intervencionada em finais de 2008 e, na ficha de sinalização, eram referenciados os seguintes problemas: negligência, delinquência e violência familiar.

As duas menores consideradas em risco eram a Helena e a Rosa, a primeira com 13 anos de idade e a segunda com 11. O que despoletara a sinalização tinha sido o facto de terem ficado entregues a si próprias quando a mãe foi internada no hospital, na sequência de uma sova aplicada pelo seu filho mais velho, o Felipe, à data com 18 anos.
A assistente familiar foi conhecer a família. A Helena é que lhe abriu a porta, ao meio da tarde, porque a mãe estava a dormir.
A casa estava razoavelmente arrumada embora desprovida de conforto e de higiene.
A mãe levantou-se para vir conhecer a assistente familiar e já vinha alcoolizada. Este alcoolismo é um facto instalado e a Olga não consegue ter mão no seu consumo, na gestão doméstica e, mais grave que tudo, na prestação de cuidados às filhas.
Soubemos que o pai trabalhava na construção civil fora do país e que só vinha a casa uma ou duas vezes por ano. Tinha, no entanto, o cuidado de mandar dinheiro para o sustento da família que a Olga desbaratava na bebida e na má gestão que fazia dos seus parcos recursos. O Felipe estava detido por homicídio. Embora mãe e filho tivessem uma relação conflituosa, o Felipe demonstrava grande preocupação com o destino das irmãs.

As meninas mostravam algum desalento e uma total impotência face aos comportamentos da mãe. A Helena tinha muitas faltas na escola e falsificava a assinatura da mãe na caderneta e nos testes. Havia, porém, muito afecto entre elas o que pesou imenso em termos de motivação para a alteração de alguns comportamentos.

Era este o quadro da situação familiar. A alegria, a disponibilidade mas, sobretudo, a perseverança da assistente familiar granjearam-lhe a confiança desta pequena família.
Uma vez criada a empatia, fez-se então o levantamento das necessidades verbalizadas pelas três. Uma vez concluído, chegou-se à conclusão que, em termos de saúde, contactos com a escola, procura de apoios locais e legalização da mãe das menores, estava tudo por fazer.

É importante começar com o básico e com tarefas muito concretas. Assim, e relativamente às menores, conseguiu-se:
  • pôr em dia as vacinas;
  • articular regularmente com as directoras de turma ;
  • apoio psicológico gratuito para a Helena.

Com a Olga foi mais difícil porque a dependência do álcool é enorme. Foi fundamental a relação de amizade e confiança que estabeleceu com a assistente familiar. Só assim lhe foi possível falar das suas dificuldades, das suas frustrações, da impotência sentida face à sua dependência alcoólica. Também da enorme vergonha, da raiva, da solidão e desses sentimentos todos aos quais não se consegue dar nome…

Mas fez-se um grande trabalho:
  • as consultas de clínica geral e de alcoologia ficaram agendadas;
  • tratou-se da sua renovação de residência;
  • procurou-se, a partir das amizades estabelecidas no bairro, o apoio a este agregado e a supervisão possível;
  • estabeleceram-se, entre mãe e filhas, algumas regras de funcionamento em casa;
  • providenciou-se o acesso ao Banco Alimentar;
  • conseguiu-se algum mobiliário em falta e reorganizaram-se os espaços familiares.

Acabada a intervenção de seis semanas, a assistente familiar foi realizando os follow-up e foi mantendo contactos pontuais com a família no sentido de “aguentar” a situação até ao internamento da Olga no Centro de Alcoologia para tratamento uma vez que estava já em progresso uma desintoxicação com algumas recaídas pelo meio…
A pedido da Olga, e estando a aproximar-se o momento da sua “retirada de cena”, foi decidido, em reunião da equipa, realizar uma segunda intervenção junto desta família.

Esta segunda intervenção está agora na recta final. O panorama é já um pouco diferente daquele que a assistente familiar vislumbrou ao longo da primeira intervenção. A Olga continua a tomar a medicação adequada e tem períodos de sobriedade. Está consciente das suas fragilidades e aguarda com impaciência o internamento que se aproxima. A filha mais nova verbalizou que as recaídas da mãe acontecem sobretudo nos fins-de-semana. Mas ela já vai sendo capaz de confrontar a mãe com esse facto.

O apoio psicológico à Helena continua a decorrer. A casa vai-se mantendo razoavelmente organizada.
Agora é preciso preparar o período em que a Olga vai estar ausente e providenciar, junto da família alargada ou mesmo num Lar de Acolhimento Temporário, a guarda das menores.

É toda uma equipa que está ao par da situação e que aguarda o desfecho desta história.
Esperamos que a Olga consiga ultrapassar este obstáculo, talvez o mais penoso a acrescentar a tantos que conheceu ao longo da sua vida.
 
Apoios